Orgão da Paróquia Anglicana de Santos
01.fev 2022

Por Daniel dos Santos*

Ouça um pouco do instrumento enquanto lê (No vídeo, trata-se de um Apollo Organ com mecanismo elétrico de movimentação do fole, provavelmente, dos anos 1930):

Em 1918, um harmônio pneumático com pedaleiras (reed organ – “órgão de palhetas”), da Rushworth & Dreaper em Liverpool, fez seu destino ao Brasil; mais especificamente ao litoral de São Paulo. Nesse ano, acabara de ser construída a primeira – e única – Igreja Episcopal Anglicana da cidade de Santos e, como de costume e importância, foi encomendado o instrumento da família dos órgãos para fazer parte de seus cultos.

Diferente de um órgão em que tubos de metal são responsáveis pela emissão e altura das notas através da passagem do ar por eles – os órgãos de tubo -, o harmônio o faz com pequenas palhetas – também de metal – vibrantes. Para isso, muito parecido com um acordeão, há um fole expandido e contraído por um mecanismo de pedais responsável pelo controle do ar no instrumento (fig 1)¹.

Figura 1: Esquema pneumático de um harmônio.

Figura 1: Esquema pneumático de um harmônio.

Na imagem acima, a parte indicativa de número dois é a bolsa de ar (fole) movimentada pelo sistema de pedais abaixo. As teclas, por sua vez, quando pressionadas, liberam a passagem para que o ar chegue às palhetas fazendo com que vibrem.

Neste vídeo (2018)², é possível entender melhor como funciona:

 

O modelo do harmônio encomendado pela Paróquia Anglicana de Santos é “Apollo Organ”, como pode ser visto na placa acima dos teclados mostrada na figura 2.

Figura 2: placa de identificação de modelo da Rushworth & Dreaper.

Figura 2: Placa de identificação de modelo da Rushworth & Dreaper.

 

Segundo o Gellerman’s International Reed Organ Atlas (1998)³:

“O Apollo é um órgão com pedaleira e dois teclados […] feitos a fim de parecer com um console de órgão de tubo. Nele geralmente há quatro conjuntos de palhetas para cada teclado e dois ou três para os pedais” (tradução livre, p. 7).

 

KERR (1985)4 completa com um esquema mais detalhado de suas características em seu Catálogo de Órgãos do Brasil:

 

Rushworth and Dreaper (Liverpool)/1918 Pneumático

I- Gt. II – Sw.
Violone 16′ Bourdon 16.
Open Diapason 8′ Gamba 8′
Dulciana 8′ Flute 4′
Clarabella 8′ Oboe 8′
Principal 4′
Ped. (30 teclas) Sw/Gt
Opén Diapason 16′ Gt/Ped.
Subbass 16′ Gt/Sw
Trêmulo
Caixa expressiva
Crescendo

(catalogação p. 206)

 

Respectivamente “Gt.”, “Sw.” E “Ped.” são abreviações de “great”, “swell” e “pedal”. O primeiro refere-se a um conjunto de registros vinculados ao teclado inferior, o segundo aos superiores, e o terceiro aos pedais. Além disso existem os que funcionam como combinações entre os conjuntos, os “couplers”. Esses registros são estacas que se encontram nas laterais do instrumento (fig. 3) puxadas a fim de obter timbres diferentes (MILLER, 2003)5.

 

Figura 3: Registros de um Apollo Organ (1918) da Rushworth & Dreaper.

Figura 3: Registros de um Apollo Organ (1918) da Rushworth & Dreaper.

 

Sendo então, 2 registros para os pedais, 5 para o teclado inferior, 4 para o superior e 4 para as combinações.

 

Os números representam as alterações nas oitavas na mudança de registro:

Afinação Relação com a afinação
32’ Duas oitavas abaixo
16’ Uma oitava abaixo
8’ Afinação no padrão do diapasão
4’ Uma oitava acima
2’ Duas oitavas acima
1’ Três oitavas acima

 (MILLER, 2003, p. 6)

 

Em 1985, KERR escreve que o harmônio estaria em condições regulares, porém, atualmente, segundo reverendo Josué, responsável pela paróquia e quem me recebeu no dia 19 de janeiro de 2022, duas teclas não funcionam e precisam ser reparadas.

Desde 2015, tanto o Apollo Organ (fig. 4), quanto o exterior do prédio da “Paróquia Episcopal Anglicana de Santos” (fig. 5) e parte da casa paroquial ao lado no mesmo terreno são tombados pela prefeitura sob a inscrição em Livro Tombo 01, inscrição 54, Proc. 109.679/2010-56, Resolução SC 01/2015 de 11-06-2015. Entretanto, ainda segundo reverendo Josué, até então, não há quem conserte o instrumento.

 

Figura 4: Apollo Organ (1918) – Rushworth & Dreaper. Igreja Episcopal Anglicana de Santos

Figura 4: Apollo Organ (1918) – Rushworth & Dreaper. Igreja Episcopal Anglicana de Santos.

 

Figura 5: Entrada da Igreja Episcopal Anglicana de Santos construída em 1918

Figura 5: Entrada da Igreja Episcopal Anglicana de Santos, construída em 1918.

 

Referências:

¹ EARL, S. G. Repairing the Reed Organ and Harmonium. The Organ Literature Foundation, 1976. p. 18.

² CATÓLICAS, Partituras. Por Dentro Do Harmônio. Youtube, 30 de nov. de 2018. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=TE0j49rZYZk>.  Acesso em: 20 jan. 2022.

³ GELLERMAN, Robert F. Gellerman’s International Reed Organ Atlas. Rowman & Littlefield, 1998.

4 KERR, Dorotéa Machado. Possíveis causas do declínio do órgão no Brasil e Catálogo de Órgãos no Brasil. Dissertação de mestrado apresentada à Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro. 1985. P. 206.

5 MILLER, Dan. Beginnig Organ. Rodgers, 2003.

6 FISCHER, J. Rushworth & Dreaper Apollo organ, showing different stops in combination. Youtube, 5 de mar.      De 2017. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=mvmrjDjYgSE>. Acesso em: 20 jan. 2022.

 

*Daniel dos Santos é músico multi-instrumentista com enfoque em instrumentos musicais cordófonos; bacharel em Música – Ciências Musicais pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel); e etnomusicólogo independente com seus interesses de pesquisa em torno dos contextos socioculturais nos quais se desenvolvem a música tradicional caiçara (lavrador-pescador do litoral Sul-Sudeste).

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